quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Atualização 2016 12 01

100 anos de Samba?

            Há uma confusão estabelecida pela falta de informação que faz pensar que o Samba teve dia, hora e local de nascimento. Isso ocorre porque no dia 27 de novembro de 1916 a Biblioteca Nacional registrou a música “Pelo Telefone”, composto por Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga. A partir daí, muitos começaram a identificar como sendo a data de nascimento do Samba, o que não é verdade.
O ritmo nascido no Brasil, mais especificamente na região do Recôncavo Baiano - que teve influência do ‘Semba’, um ritmo africano -, nasceu no tempo da escravidão. Partindo da Bahia para o Rio de Janeiro, o Samba expande-se para o mundo e torna-se um diplomata da cultura nacional.
Que Donga teve um papel fundamental na história do Samba é um fato, afinal de contas, antes dele o samba era somente “coisa de malandro, barulho do gueto, do subúrbio”; portanto, discriminado pela sociedade elitizada. Depois do primeiro registro, vieram muitos outros e o sucesso nas rádios, avenidas e salões foi avassalador. Porém, creditar todos os méritos a ele afirmando que ele pariu o samba é negar a própria história de construção cultural dos africanos e seus descendentes no Brasil.
Finalizando, o correto é afirmar: 100 anos de registro do samba “Pelo Telefone”, primeiro samba aceito pela Biblioteca Nacional; pois o Samba é muito mais antigo.

 
Dia Nacional do Samba

            Já o dia 02 de dezembro, Dia do Samba, comemorado em diversas cidades no Brasil, não tem nada a ver com o registro de “Pelo Telefone”, nem com a data de nascimento de Tia Ciata, responsável por levar o samba do Recôncavo Baiano para o Rio de Janeiro. Trata-se de uma homenagem iniciada na Bahia ao compositor mineiro, Ary Barroso (1903-1964), por sua composição de exaltação a Salvador intitulada “Na Baixa do Sapateiro”.
Ary Barroso chegou a concorrer ao Oscar de melhor canção no filme “Brasil’ com a composição “Rio de Janeiro”, e é dele a famosa música “Aquarela do Brasil”.



Capoeira na Escola canta Cartola


            No Dia Nacional do Samba (02/12), a Associação Cultural Capoeira na Escola fará a sua homenagem a outro grande nome do Samba: Cartola. Será às 21h, no Casarão Born, em formato de roda e com instrumentos sem amplificação elétrica e sem microfone. A lista de músicas segue abaixo para que todos os participantes cantem juntos.

1- Sim
2- Corra e olhe o céu
3- O mundo é um moinho
4- Peito vazio
5- Tive sim
6- As rosas não falam
7- Acontece
8- Alvorada
9- Preciso me encontrar
10- Tempos idos
11- Amor proibido
12- Pranto do poeta
13- Senhora tentação
14- O sol nascerá
15- Cordas de aço


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

5º Encontro Catarinense de Capoeira Especial

Governador Celso Ramos sedia 5º Encontro Catarinense de Capoeira Especial

Aconteceu no último dia 17 de novembro, em Governador Celso Ramos, a quinta edição do Encontro Catarinense de Capoeira Especial. Duzentos e vinte pessoas participaram do evento, vindos da Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE), Associação Catarinense dos Portadores da Síndrome do X Frágil, Associação Amigo Down, Lar São Gabriel e das APAEs de Brusque, Biguaçu, Nova Veneza, Camboriú, Garopaba, e de Governador Celso Ramos. Participaram também representantes dos Grupos de Capoeira: Associação Cultural Capoeira na Escola, Gunganagô, Capoeira Brasil, Camará e Acaprás.
A bela cidade de Governador Celso Ramos abraçou a causa do Encontro e a Escola Especial Maria Veríssimo da Silva deu um show de carinho e de organização. Ambos os representantes da Apae anfitriã, Diretora Ana Paula Silva e Luís Roberto Pereira, conhecido como Contramestre Cabrito, destacam que “foi muito gratificante poder ver a aceitação do poder público e das empresas da região para esta proposta. Em qualquer local que apresentávamos a ideia conquistávamos mais parceiros, essenciais para a realização deste momento único para o município.”
O Centro Adventista de Treinamento e Recreação (Catre) abriu as suas portas para receber os capoeiristas de diversas regiões do estado e o Prefeito, Juliano Duarte Campos, foi quem deu as boas vindas, exaltando a importância da atividade e colocando a municipalidade à disposição para novas realizações.



A programação

Após a apresentação das autoridades presentes, o Hino Nacional com a Orquestra de Berimbaus oficializou a abertura que foi seguida pelos relatos de experiência dos municípios que participaram pela primeira vez do Encontro, Garopaba e Camboriú. Em seguida, foi a vez dos Educadores que ministram as aulas de Capoeira de forma inclusiva demonstrarem suas habilidades para a alegria dos capoeiristas com deficiência.
O período da tarde foi marcado pela realização do primeiro Festival de Cantadores, ação que surpreendeu a todos pela qualidade vocal, pelo ritmo e diferentes timbres de voz dos participantes. O capoeirista Max, da APAE de Camboriú, ficou em primeiro lugar, seguido por Uélinton, da APAE de Governador Celso Ramos.
Antes de começar as apresentações por município, que teve Brusque como a primeira roda, a capoeirista Viviane Voss, da APAE de Brusque, fez um relato sobre o prêmio recebido por ela e mais quatro colegas pelo envio de um vídeo educativo à ação do Ministério da Educação intitulada “Pesquisar e conhecer para combater o Aedes aegypti”. Segundo a capoeirista Viviane, “foi uma experiência maravilhosa, uma sensação de que a gente pode, de que a gente consegue.”.
A Apae de Nova Veneza, com a coreografia que mescla: Samba de Roda, Capoeira e Maculelê, foi a segunda a se apresentar. Em seguida, vieram as APAEs de Camboriú e Garopaba. Biguaçu e Governador Celso Ramos, além da Capoeira, fizeram a apresentação da Puxada de Rede. Os usuários da Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE), junto aos representantes da Associação Catarinense dos Portadores da Síndrome do X Frágil, da Associação Amigo Down e do Lar São Gabriel, fizeram a apresentação final composta por uma roda de capoeira com sessenta pessoas. Todas as delegações receberam medalhas de participação oferecidas pela Fundação Catarinense de Esporte (Fesporte).

Encerramento

O idealizador do evento e Mestre de Capoeira, Fernando Bueno (Tuti), Educador Físico do Centro de Educação Física da FCEE, fez questão de enfatizar a felicidade dos participantes, agradeceu a presença e empenho das delegações e anunciou o retorno do Encontro Catarinense de Capoeira Especial à FCEE, em 2017.





domingo, 20 de novembro de 2016

A luta de Zumbi continua...

A luta de Zumbi continua...


Os conflitos entre negros e índios escravizados pelos europeus, em particular, portugueses e espanhóis, foram constantes nos quase quatro séculos de escravidão brasileira. Os atos de barbárie contra os negros mantidos a força eram a tônica de um comportamento social permitido à época: legal, jurídico. A escravidão era mantida e permitida pelo Estado Brasileiro e chancelada pela Igreja. O que chama a atenção neste período é a forma de se ver e tratar o outro: uma espécie de animal que falava.
O século XV foi de grandes descobertas científicas, culturais e de identidades nacionais. Incrível como essas iniciativas desenvolvimentistas não foram capazes de deter o processo anticivilizatório que era representado pela economia escravagista no mesmo espaço de tempo. Esse quadro histórico é de suma importância para percebermos que o sistema econômico - quando entendido e desenvolvido através das lentes da justificativa da lucratividade plena - faz pessoas e meio ambiente serem meros coadjuvantes, ou seja, não se medem as consequências imediatas e futuras.
Zumbi entra na história nacional em um desses hiatos históricos. A Serra da Barriga no ano de 1695 transformou-se no maior polo de ações contrárias ao escravismo e aquela forma de vida que sustentava a economia nacional, os privilégios da realeza e das famílias dos senhores de engenho, sem recebimento de salário ou condições mínimas de subsistência. A economia brasileira não conseguiria se desenvolver sem a presença dos africanos no Brasil. Não há nada que tenha sido construído neste país que não tenha a força de trabalho dos povos escravizados como protagonistas.
No continente africano, esses povos formavam nações ricas e cultas, o berço da civilização e do desenvolvimento humano. Pensemos na sociedade egípcia. No entanto, quando pisaram em solo nacional, foram transformados em uma única massa: em escravos negros. Este ainda é o pano de fundo de uma história mal contada e uma Abolição não-conclusa.
Infelizmente, o dia 20 de novembro, data do assassinato e esquartejamento público de Zumbi dos Palmares, ainda é só para os negros. Impressionante como a teoria do embranquecimento ou da branquitude ainda determina os feitos históricos de todos os povos que construíram e sustentam a economia deste país até os dias atuais. A invisibilidade do Poeta Cruz e Sousa, da Deputada Antonieta de Barros e a não aplicabilidade das leis federais 10.639/03 e 11.645/08, comprovam esta atitude preconceituosa, do ponto de vista histórico. Concomitante, pelo menos desde 1991, estamos a viver sobre os ataques de grupos neonazistas. O caso recente e específico da UFSC demonstra como esses grupos racistas e fascistas estão crescendo, sendo fortalecidos e agindo publicamente em espaços de saber e de mudanças comportamentais. A maior Universidade de Santa Catarina não sabe o que fazer para proteger o direito dos alunos negros que ingressam em seus cursos anualmente.
A barbárie que citei acima persiste em ser determinante. A desconstrução do racismo requer a quebra deste autoritarismo eurocêntrico que não reconhece a importância de outras civilizações. A Eugênia ainda é uma teoria que sustenta privilégios embasados na cor, no sobrenome e em uma história inventada. O Estado administrado desta forma ainda não está preparado para reconhecer e trabalhar com as diferenças étnicas.
Quando analisamos os governos das quatro maiores cidades da Grande Florianópolis e do próprio Governo do Estado verificamos que sequer temos um secretário (a) negro (a) no meio de centenas deles. Neste sentido, como as crianças negras irão sonhar um dia em pertencer a este espaço? A desconstrução de um povo se dá quando você impede o seu direito de acessar espaços que são seus por direito. Por isso, a saga de Zumbi ainda continua, pois só o desmonte da escravidão não foi suficiente de garantias constitucionais para os negros. Já se passaram 128 anos da assinatura da Lei Áurea e ainda não atingimos o patamar de igualdade sonhada pelos quilombolas de todo o Brasil.
O caminho a ser percorrido pelos negros brasileiros ainda é tenso e nebuloso. O projeto de enfraquecimento de sua identidade cultural e patrimonial ainda é o grande entrave para que ele se veja e assuma sua negritude abertamente. Desconstruir todas as teorias e grupos racistas não será algo simples e fácil porque não estamos instrumentalizados pela escola, economia, artes e cultura. Este 20 de novembro terá que ultrapassar a comemoração e ganhar as ruas. Precisamos realimentar nossos sonhos de liberdade econômica, cultural e histórica.


Marcos Canetta, Historiador e Professor da Faculdade IES.